Se as imagens em 3D do filme "Avatar", de James Cameron, lhe provocarem dor de cabeça, pode ser que você sofra de um problema ocular ainda não diagnosticado. Isso é o que defende o neuro-oftalmologista David Granet, pesquisador da Universidade da Califórnia, autor do artigo sobre o tema, publicado no “Eurotimes”, Jornal da Sociedade Européia de Catarata e Cirurgia Refrativa.
Granet sugere que se alguém sente dores de cabeça, após assistir produções com efeitos especiais em 3D, deve-se investigar a razão deste desconforto. A esposa próprio médico, segundo relato no artigo, teria uma anisometropia, nome que se dá à condição em que o erro refrativo é diferente entre os olhos, o que pode ter sido a causa da dor de cabeça dela. Ele conta que a esposa, aos 90 minutos do filme, começou a sentir-se mal, enjoada. Após retirar os óculos por 20 minutos, voltou ao seu estado normal.
O médico explica que o grande esforço tentando fundir as imagens diferentes apresentadas a cada olho causou o cansaço visual da esposa. Para ver a imagem em 3D é necessário que a imagem formada em cada olho seja clara. “Se seus olhos não estão vendo a mesma imagem, seu cérebro tem que fazer muito esforço para mesclar as duas imagens. Em última análise, é o seu cérebro que está fazendo o esforço que causa a dor de cabeça, mas são os olhos que estão criando o trabalho extra para seu cérebro”, diz o oftalmologista Virgilio Centurion, diretor do IMO, Instituto de Moléstias Oculares.
Em condições normais, esta situação de esforço extra para os olhos pode não representar um problema, porque quando você apresenta fadiga visual, na frente do computador, você se levanta por cinco minutos, descansa os olhos e fica bem novamente. “Mas quando você está no cinema, assistindo um filme que tem 162 minutos, você tem que concentrar-se mais para fundir as imagens. É isto o que causa a dor de cabeça”.
Mesmo os pacientes com visão normal podem ter dificuldades para assistir a produções em 3D, em parte porque não é possível, no mundo real, focar a profundidade dos objetos, como é nos filmes. “A adaptação ao uso dos óculos 3D também pode causar algum desconforto, mas para a maioria das pessoas esta sensação é temporária”, relata Centurion.
Para o diretor do IMO, estes sintomas podem ser uma bandeira vermelha, especialmente em crianças, tornando-se indispensáveis um teste de triagem para anisometropia, estrabismo ou ambliopia. Pacientes com alterações da retina, desequilíbrio nos músculos ópticos e com dificuldade para controlar os olhos são mais propensos a apresentarem os sintomas negativos com o uso dos óculos 3D porque estes filmes tendem em exagerar, além do que ocorre em situações cotidianas, na separação das duas imagens projetadas. “Mesmo um paciente sem nenhum problema visual também pode ter problemas com a fusão das imagens em 3D, o que pode prejudicar seus músculos visuais e sua capacidade neuroadaptiva”, afirma oftalmologista Eduardo de Lucca, que também integra o corpo clínico do IMO.
Para os pacientes que têm problemas com o uso dos óculos 3D, o mais provável é que estejam presentes distúrbios da motilidade ocular do qual eles ainda não têm conhecimento. “Para comprovar o diagnóstico são necessários realizar testes de phoria (desvios latentes dos olhos) e de tropia (desvios manifestos dos olhos). Pacientes com tropia, muitas vezes, apresentam também diplopia – mais conhecido como visão dupla –, o que os impede de perceber os efeitos dos filmes em 3D”, explica Eduardo de Lucca.
A diplopia pode ser congênita ou pode se desenvolver durante a vida, como resultado de um trauma, tumores ou paralisia do nervo óptico, provocada por diabetes ou outras doenças sistêmicas, como esclerose múltipla, miastenia grave ou problemas de tiróide.
FONTE: SITE ABRIL |