Sim, essa pode ser a definição para o espetacular sistema oftalmológico, responsável por um dos sentidos mais importantes para o corpo humano: a visão. Orientar o cliente sobre prevenção e cuidados com os olhos é um verdadeiro benefício que a farmácia pode oferecer
POR JANAÍNA GIMAEL E ANDRÉIA BRASIL
Engrenagem perfeita. É assim que pode ser classificada a visão humana. Dos cinco sentidos, esse é o que provê o maior volume de informações a serem processadas pelo cérebro. A parceria entre a máquina cerebral e os olhos permite, por exemplo, que sejamos capazes de ver a diferença entre um animal qualquer e um galho em menos de 20 milissegundos, o que torna o sentido fundamental para a sobrevivência da espécie. "Sabemos que o nosso sistema ocular, embora fantástico, pode apresentar muitas falhas. A águia e a coruja têm sistemas diferentes, que focalizam a distâncias incríveis, mas isso é importante para esses animais e não sei até que ponto seria interessante para o ser humano. As espécies se adaptam para o meio em que vivem", afirma o oftalmologista Virgílio Centurion, diretor do Instituto de Moléstias Oculares (IMO).
Para entender o funcionamento dessa máquina, basta imaginar uma bola com três camadas. A primeira, externa, é aquela na qual fica a parte branca do olho, a esclera, e uma calota transparente, a córnea. A camada intermediária é formada pela coróide, membrana entrecortada de vasos sangüíneos que irrigam a retina. Na parte frontal da coróide fica a íris, que dá cor ao olho, onde, bem no centro, fica a pupila. Logo atrás da pupila existe uma lente, o cristalino, estrutura com capacidade para focalizar os objetos. A camada mais interna é a retina, que age como uma espécie de tapete, revestindo toda a coróide. "Todo esse processo é logicamente organizado. Exemplo? Quando há luz, esta atravessa a córnea, a pupila e chega à retina, onde se processa a primeira fase da visão. Então a imagem é transferida para o cérebro, onde se finaliza todo esse caminho", detalha o médico.
Apesar de uma lógica quase cartesiana para o seu funcionamento, o olho não está livre de doenças. Os problemas oculares dividem-se em dois grupos. No primeiro, figura o que os especialistas chamam de imperfeições: a miopia, a hipermetropia, o astigmatismo e a presbiopia. Problemas que podem ser corrigidos com cirurgia ou com o uso de lentes de contato ou óculos. No segundo, estão as doenças graves: a catarata, o glaucoma, a degeneração macular, a retinopatia diabética, entre outras.
A catarata aparece, geralmente, depois dos 65 anos de idade, quando o cristalino perde a transparência, e a visão começa a diminuir gradativamente. O tratamento da doença é cirúrgico. Substitui-se o cristalino verdadeiro por uma prótese. Já o glaucoma é um mal silencioso, não emite sinais ou sintomas. Por esse motivo, lidera o ranking das causas de cegueira no mundo. Surge, geralmente, naqueles com mais de 40 anos e com histórico de doença familiar. "Ele destrói o nervo óptico - órgão responsável por levar a informação visual da retina até o cérebro -, e a única maneira de descobrir a sua existência é visitar o oftalmologista anualmente após os 40", orienta Centurion.
O tratamento médico pode incluir desde a indicação de colírios até a aplicação de laser ou intervenção cirúrgica. Vale ressaltar ainda que, dentro da retina, existe uma região chamada de mácula, que possibilita nitidez à visão. Essa é a área afetada pela degeneração macular. A doença, segunda maior responsável por grandes problemas oculares, acomete com freqüência os maiores de 70 anos. Apresenta sintomas como desconforto e má qualidade da visão. O tratamento pode ser feito com colírios, laser, cirurgia ou aplicações de injeções dentro do olho. Já a retinopatia diabética, caracterizada por alterações vasculares, provoca pequenos sangramentos nos vasos. "Se esses sangramentos perdurarem, começam a prejudicar a visão, podendo chegar a um estágio irrecuperável. Os diabéticos devem fazer consultas regulares ao oftalmologista e controlar o diabetes, tais medidas podem preservar a visão", afirma o especialista.
Inovações tecnológicas em nome da visão
A medicina, em especial a área de oftalmologia, é uma das que mais se beneficiam com as inovações tecnológicas. O Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da Universidade de São Paulo (USP), está, por exemplo, desenvolvendo o Olho Virtual, um conjunto de softwares que pode reproduzir, com fidelidade, fenômenos ainda não compreendidos que acontecem no olho humano. "Ele tenta modelar no computador os aspectos ópticos e fisiológicos desse órgão humano. São realizadas aferições oculares de uma pessoa por meio de equipamentos oftálmicos e, neste caso, criado um olho virtual com base nestes dados. Desse modo, o olho virtual consegue ter o comportamento que teria o olho desta pessoa em que foram realizadas as medidas", explica o professor Odemir Martinez Bruno, um dos coordenadores do projeto. O equipamento, que, por enquanto, é utilizado somente em laboratório, poderá colaborar para pesquisas de fenômenos do sistema de visão e para a clínica. "Em um futuro próximo, ele poderá auxiliar o médico na análise de um paciente, mostrando na tela do computador detalhes do funcionamento do olho e simulando o melhor procedimento cirúrgico para determinado caso", diz Bruno.
Bastante utilizadas pela oftalmologia, as próteses oculares são outros instrumentos que contam com avanços tecnológicos. Para Rodrigo Meyer, oftalmologista especializado em cirurgias com próteses, "o ponto alto da prótese ocular é que ela devolve a autoestima, é a qualidade de vida que ela proporciona ao paciente. Depois que ele coloca a prótese, o convívio social e o profissional melhoram, pois o problema não fica mais exposto".
Independentemente do problema ocular, uma questão é certa. Todo e qualquer problema oftálmico deve ser acompanhado pelo médico. Sem a orientação de um especialista, o uso de qualquer substância pode causar sérios danos à visão. A detecção precoce de doenças e os cuidados médicos prescritos podem ser bem positivos, afinal o olho é uma estrutura frágil.
Fotofobia: quando a luz fala mais alto
O uso de óculos escuros pode se fazer necessário não apenas para proteção contra os raios solares. Muitas pessoas sofrem com o excesso de sensibilidade à claridade, também conhecido como fotofobia. "A retina é formada por células fotossensíveis. Quando existe hipersensibilidade, os olhos passam a recusar o excesso de determinadas informações, no caso a luz, que acaba gerando grande desconforto", afirma Centurion.
A fotofobia, que se manifesta, principalmente, em loiros, albinos e pessoas de olhos claros, geralmente é um sinal de processos inflamatórios no globo ocular, sejam eles intra ou extra-oculares. Em crianças com doenças congênitas, a aversão à luz é o principal sintoma apresentado. "A fotofobia dificilmente ocorre em olhos normais, mas há casos em que olhos saudáveis apresentam dificuldade em lidar com a claridade", explica Centurion.
Apenas após o exame oftalmológico é possível definir a alternativa terapêutica para quem reclama de claridade excessiva. Se não for diagnosticada nenhuma doença, o paciente tem duas alternativas: aprender a lidar com ela, se o grau for minimamente suportável, ou encontrar maneiras de regular a quantidade de luz que entra nos olhos. Isso pode se dar pelo controle da intensidade de luzes artificiais ou pelo uso de óculos escuros em ambientes externos. Nesse caso, é importante escolher lentes com proteção contra raios ultravioleta, porque, como os óculos são escuros, a pupila fica mais dilatada e permite que entre uma quantidade maior de luz, o que pode fazer com que os mais sensíveis tenham maior predisposição ao desenvolvimento da catarata e de processos degenerativos de retina.
Quanto às doenças, a fotofobia pode decorrer de astigmatismo, cicatrizes na córnea, doenças inflamatórias oculares relacionadas ao reumatismo, toxoplasmose, herpes e outras doenças infecciosas, neurológicas, psicológicas e psiquiátricas, (enxaquecas, por exemplo), além de alergia crônica nos olhos e câncer ocular. Bebês que nascem com fotofobia podem ter glaucoma congênito ou conjuntivite, doenças que requerem tratamento imediato.
Outro grupo vulnerável é o formado pelas mulheres que têm mais de 50 anos, as quais, freqüentemente, apresentam diminuição no volume de lágrimas. Com isso, suas pálpebras grudam, o que provoca microlesões na córnea e também fotofobia. De qualquer maneira, o ideal é sempre procurar um médico para descobrir a causa.
FONTE: GUIA DA FARMÁCIA
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