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O transplante de córnea

O número de transplantes realizados no Brasil aumentou 44% em seis anos, segundo levantamento do Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde.

Em 2001, foram 56,41 cirurgias desse tipo a cada grupo de 1 milhão de habitantes. Em 2007, foram 81,09 transplantes/milhão de habitantes. O país tem 559 hospitais autorizados a realizar transplante. O órgão mais aguardado na lista de espera dos pacientes que precisam de transplante é o rim, com 34.108 pessoas em dezembro de 2007. Em segundo lugar está a córnea, com 24.611 indivíduos. E em terceiro, o fígado, com 6.452 cidadãos.

De acordo com as informações do governo, São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul são os estados que mais fizeram esse tipo de procedimento em 2007. Os hospitais paulistas fizeram 178 transplantes/milhão de habitantes. No Paraná, foram 119 transplantes/milhão de habitantes e, em Mato Grosso do Sul, 100 transplantes/milhão de habitantes. O transplante de córnea está entre os mais realizados nos três estados no ano passado.

Quando o transplante é necessário

As principais alterações na córnea que exigem a realização de um transplante para recuperar a visão são o ceratocone e a distrofia do endotélio. O ceratocone é uma doença que se manifesta em pessoas mais jovens e se caracteriza pelo adelgaçamento da córnea que torna-se mais pontiaguda. Essa irregularidade interfere na curvatura corneana, aumentando o astigmatismo, e, conseqüentemente, distorcendo muito a imagem que chega à retina. Já a distrofia do endotélio corneano acomete especialmente os idosos, pois as células endoteliais que revestem a face posterior da córnea vão sendo perdidas no decorrer da vida.

A evolução da doença costuma ser lenta, mas algumas pessoas perdem essas células com maior velocidade. “Quando a perda é acentuada, a córnea acumula água, adquire o aspecto de um vidro fosco que prejudica a passagem da luz e, por isso, a pessoa não consegue enxergar adequadamente. Essa enfermidade é conhecida também como distrofia de Fuchs”, explica o oftalmologista Virgilio Centurion, diretor do IMO, Instituto de Moléstias Oculares. Para decidir sobre a indicação do transplante de córnea, é de extrema importância que o oftalmologista avalie a queixa do paciente e em que medida a cirurgia pode resolver o distúrbio e melhorar a sua qualidade de vida. Conforme o caso, não vale a pena realizar a cirurgia.

“Nos casos de portadores da doença de Fuchs, é preciso saber há quanto tempo o embaçamento prejudica a visão e dificulta a realização das atividades rotineiras. É preciso saber também se existe dor ou não, e se a doença é bilateral ou unilateral. Às vezes, ela enxerga embaçado só de um lado; do outro, enxerga bem. Nesse caso, se suas atividades não exigirem profundidade de visão, pode não valer a pena indicar o transplante”, recomenda Virgilio Centurion.

Como é feito o transplante

O transplante de córnea é uma cirurgia muito delicada. “O cirurgião opera com uso de microscópio. Basicamente, a técnica consiste em retirar um círculo central da córnea doente com um instrumento cirúrgico chamado trépano. Esse círculo será substituído pela córnea saudável de um doador, captada num banco de olhos. A seguir, sutura-se com fio de nylon extremamente fino. Os pontos são sepultados, isto é, enterrados na córnea. O fato de não ficarem expostos faz com que a dor seja menos intensa no pós-operatório.

Só se transplanta a córnea toda em casos de doenças especificas”, afirma o oftalmologista Fabrício Witzel, que também integra o corpo clínico do IMO e é especializado no tratamento de doenças da córnea. Segundo Witzel, o transplante pode ser realizado com anestesia local ou geral. “Se optarmos pela local, ele receberá sedação para ficar mais tranqüilo e relaxado. Hoje em dia, o transplante de córnea que emprega a anestesia geral é seguro e está livre da gravidade que o cercava na década de 1960. Tem, ainda, a vantagem de proporcionar certo conforto para o doente e deixar seu olho imóvel, o que facilita o trabalho do cirurgião. Às vezes, porém, as condições clínicas não permitem que se use a anestesia geral”, explica o médico.

Em todas as cirurgias oculares, o grande medo é a ocorrência de uma infecção intra-ocular chamada endoftalmite. Mesmo em cirurgias como as de catarata, esse risco existe, mas este é maior nos transplantes, onde se trabalha com material biológico, que não pode ser esterilizado como os demais”, explica o oftalmologista Fabrício Witzel. Apesar da incidência de infecções nos transplantes ser baixa, ninguém está livre de estar incubando uma conjuntivite, por exemplo, que dois ou três dias depois do transplante irrompe com força e alastra-se olho adentro.

Como é o pós-operatório

Em regra, a pessoa faz o transplante e algumas horas depois pode voltar para casa, mas sai com o olho ocluído para protegê-lo. A sutura é bastante segura para que saia deambulando, só não pode coçar os olhos. Logo em seguida, deve ser iniciada a aplicação de colírios antiinflamatórios a cada três horas para evitar a rejeição. Num primeiro momento, a visão do receptor da córnea pode melhorar, mas posteriormente, fica embaçada de novo durante a troca do epitélio do doador pelo do receptor.

Mais tarde, o receptor passará a enxergar melhor. “Em relação à troca de epitélio, podemos explicar desta maneira: a córnea do doador é retirada com todos os seus componentes. A camada mais superficial da córnea chama-se epitélio e é trocada a cada sete dias pelo organismo. A troca das células epiteliais do doador vai ocorrer no mesmo período, o que provocará inicialmente certa irregularidade na córnea”, explica Fabrício Witzel. Após a cirurgia, o médico examina o paciente obrigatoriamente no dia seguinte ao transplante e uma semana depois.

No primeiro mês, ele volta para avaliação com intervalo de mais ou menos sete dias e, depois, até completar seis meses, uma vez por mês. “Daí em diante, as consultas vão se espaçando, mas a orientação é que se deve procurar o médico sem perda de tempo, sempre que houver qualquer sinal que possa sugerir rejeição, como olhos vermelhos. Como o olho que recebeu o transplante fica fragilizado, outro cuidado importante é evitar traumas. Nesse sentido, principalmente os jovens são alertados. Uma bolada no olho, por exemplo, pode pôr a perder um transplante que vinha bem há cinco anos”, recomenda Fabrício Witzel.

Riscos de rejeição

O índice de sucesso nos transplantes de córnea está em torno de 93%, 95%. Entretanto, de 30% a 50% dos doentes vão apresentar algum episódio de rejeição que pode ser tratado com medicação tópica (colírios). “Se o doente for atendido numa fase inicial, quando começa a queixar-se de que o olho está um pouco mais vermelho, lacrimejando e a visão mais embaçada, os resultados são melhores. O problema é maior quando os sintomas da rejeição estão em estágio avançado”, alerta o oftalmologista Fabrício Witzel. Os casos de rejeição não são tão freqüentes nos transplantes de córnea.

“Como a córnea saudável tem a vantagem de estar num sítio privilegiado, sem vasos sangüíneos, a possibilidade de rejeição é menor do que a de qualquer órgão vascularizado. O problema é quando a doença evolui muito e entram vasos na córnea”, explica o oftalmologista. Passados seis meses depois do transplante, a possibilidade de rejeição cai bastante, embora ela possa ocorrer sempre e seja mais freqüente nos primeiros seis meses depois da cirurgia. Estão menos propensos à rejeição, pacientes com a córnea menos vascularizada e com mais idade. Esses dois fatores ajudam a conter a reação inflamatória e a evitar a rejeição.

“É importante explicar que a rejeição não significa que o paciente tenha perdido o olho. Se a córnea que era transparente, edemaciou, ficou opaca, é possível trocá-la por outra. No entanto, os episódios de rejeição acabam comprometendo as condições adequadas do receptor e favorecem a exposição de vasos sangüíneos. Como conseqüência, a cada novo transplante, o risco de rejeição aumenta”, informa o médico.

Incentivo à doação de córneas

São Paulo acaba de registrar a marca de 30 mil cirurgias de transplante de córnea realizadas desde o ano 2000. Segundo informações da Secretaria de Saúde do Estado, atualmente, há 1,7 mil pacientes na lista de espera por uma córnea no Estado, contra 2,7 mil em maio do ano passado. “As filas de espera diminuíram muito com as campanhas de doação e o incentivo governamental para o funcionamento dos bancos de olhos”, afirma o oftalmologista Virgilio Centurion, que é membro da ALACCSA, Associação Latino-Americana de Cirurgiões de Córnea, Catarata e Cirurgias Refrativas.

Uma vantagem que a córnea apresenta sobre os outros órgãos é que ela pode ser retirada até seis horas após a morte. Se o corpo for conservado adequadamente, o prazo se estende para um dia. Uma vez retirada, a córnea é conservada em meios especiais por até 14 dias. “Todos podemos ser doadores de córnea, basta manifestar em vida o desejo de doar esse órgão ou orientar a família para que ela permita a doação após a morte”, explica Centurion. No banco de olhos, a córnea doada passa por uma triagem para verificar se é de ótima qualidade ou não para transplante no receptor. Existem alguns critérios de exclusão: não são considerados doadores viáveis pessoas que tiveram hepatite B ou C, os portadores do vírus HIV, da raiva e do Creutzfeldt-Jakob, a doença da vaca louca. Também são rejeitados pacientes em que a causa da morte foi leucemia, linfomas, septicemia, endocardite bacteriana, ou seja, qualquer condição que possa infectar a córnea do receptor.

FONTE: O DEBATE

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